Terras da Costa

Sem água, saneamento e a viver em casas autoconstruídas precárias. Estas são as condições de vida das famílias que habitam o Bairro das Terras da Costa.

O início do nosso trabalho no bairro deu-se por via dum workshop promovido pelo departamento de arquitetura da Universidade Autónoma de Lisboa. Com o nome de Noutra Costa, a proposta de trabalhar este território foi endereçada a vários ateliers de arquitetura para que, em conjunto com moradores e estudantes, se fizessem intervenções no bairro que pudessem melhorar as condições do seu espaço público. O projeto por nós desenvolvido traduziu-se numas bancadas para a realização de um jogo de futebol. Nesta altura, o campo de futebol era o único espaço coletivo existente.

Após este jogo, fomos contactados por um dos moradores, que era à época um dos mediadores do bairro, Euclides Fernandes, para em conjunto pensarmos como resolver a questão da falta de água potável no bairro. Não sendo a água, julgávamos nós, um problema de arquitetura iniciaram-se conversas para perceber como melhor poderíamos prestar apoio ao bairro. Em conjunto com moradores, e projeto Fronteiras Urbanas (um projeto académico que, entre outras atividades, se centrou na questão da alfabetização crítica), chegou-se à ideia de construir uma Cozinha Comunitária. Este objeto, a ser construído num local escolhido pelos moradores responde a duas questões: por um lado, trazer, de facto, pontos de água potável para junto das casas e, por outro, criar um novo espaço coletivo que responda ao hábito de comer em conjunto. É na fase de discussão com os moradores que surge a hipótese de se receberem parte das madeiras que resultaram da desmontagem do projeto Casa do Vapor na Cova do Vapor, na Trafaria. A oferta é feita pelo coletivo Exytz e com as madeiras vem também o Colectivo Warehouse, um coletivo de arquitetos-construtores.

A Cozinha é construída no verão de 2014 e formalmente inaugurada a 8 de Dezembro do mesmo ano.

A partir deste momento, começa-se a pensar no futuro do bairro. Sendo certo que não poderiam permanecer naqueles terrenos, era urgente pensar formas de realojamento que não implicasse a dispersão pelos bairros de habitação pública do concelho, quebrando assim laços de vizinhança e de vida com a Costa da Caparica. Em conversas com o município de Almada, faz-se a proposta de ensaiar um outro modelo, participado e co-construído com os moradores. Novamente com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian os trabalhos decorrem começam em 2015, sendo em 2016 que se se desenvolve parte significativa dos mesmos. Partindo das ferramentas da arquitetura e das ciências sociais fomos construindo um processo que visasse, por um lado, entender o bairro e as suas práticas sociais situadas e que importam ser mantidas e, por outro, imaginar que forma poderia ter o novo bairro e onde poderia ser localizado dentro dos limites da cidade da Costa da Caparica. Mapear as práticas implicou um estar e uma escuta quotidianas, entender a relação com a terra e com a prática da agricultura mas, igualmente as relações e percursos diários para fora. Significou também sedimentar as relações de proximidade com a escola, transportes públicos ou locais de trabalho dos vários moradores. Entender a vida vivida pelos moradores e as suas relações familiares e de vizinhança para compreender o que significa, ali em concreto, o que se designa por "vida de bairro” e como ela poderia ser mantida ainda que, naturalmente, transformada por uma nova localização.

Entre Março de 2016 o núcleo da Rua do Juncal é realojado em moldes clássicos e as famílias são deslocadas para vários bairros de habitação pública do concelho. As casas são imediatamente demolidas e hoje, dificilmente, se encontram vestígios no local da sua prévia existência.

Em simultâneo com este projeto decorre a construção da infraestrutura elétrica. Em 2015 a chamadas “puxadas" são todas desmanteladas por via judicial e o município disponibiliza um gerador de emergência. Perante a urgência de resolver a necessidade de disponibilizar energia elétrica às casas inicia-se um outro projeto: construir uma infraestrutura legal que dê alguma estabilidade às famílias e lhes permita ter acesso a eletricidade de forma segura. Em Fevereiro de 2017 chega, finalmente, a primeira fatura de eletricidade ao bairro. Esta infraestrutura ainda se mantém e que os moradores, com mais ou menos dificuldade, têm tentado coletivamente pagar todos os meses.

Em 2016, o que nos propusemos a analisar, estudar e construir foi um corpo coeso de informação sobre o bairro, de modo a que o processo de realojamento se fizesse a partir do território tendo moradores como atores principais. Acreditamos que a recompensa deste trabalho coletivo chegará no dia em que todos os moradores tiverem uma casa digna, num bairro construído com eles.

Em 2022, o Bairro das Terras da Costa permanece no mesmo local e mais de 50 famílias continuam a viver em casas precárias, sem água e esgotos, mas com eletricidade legal. Agora que se fala de novo em realojamento e numa recomposição social da cidade, a Cooperativa Trabalhar com os 99% juntamente com o Colectivo Warehouse, parceiros e moradores do bairro decidiram construir este Observatório das Remoções para que, se consiga continuar a registar o quotidiano deste pedaço de território da Costa da Caparica.

Agora que se entra numa nova etapa de incerteza na vida do Bairro das Terras da Costa, voltando a pairar a questão do seu realojamento por via da nova legislação sobre habitação, entendemos ser importante deixar registos sobre o processo. O que nos propomos é mapear, registar e partilhar informação sobre a vida do bairro, dos realojamentos e de tudo o mais que se considere importante a cada instante. Contrariar a persistente tentativa de isolar cada um dos moradores e construir uma história comum é o mote deste projeto.

Estamos juntos - como tantas vezes se diz nas Terras.